Projectos desenvolvidos em Fortaleza


OS CAMINHOS QUE TRILHEI
Porto Madeira é uma pequena localidade com não mais de cem habitações que fica encravado entre São Domingos e Santa Cruz na ilha de Santiago. Zona montanhosa, majestosa, banhada pela brisa que sopra do norte, por isso fresca durante todo o ano.
Quando eu era criança, na época das chuvas e em noites de lua cheia, via-se a ilha do Maio muito clara a boiar na imensidão do mar e as luzes, que se imaginava serem de carros, que se deslocavam de uma ponta a outra da ilha, criava um fascínio tal na meninada que cada um apontava o seu.
 Viver ali era um desafio permanente e eu um exemplo vivo. Ali aprendi o valor da vida, tomei os primeiros contactos com a natureza, vivi os momentos mais emocionantes da minha vida, joguei bola de trapos, perdi as primeiras unhas dos dedos dos pés, roubei ovos e estraguei ninhos de pardais, tomei o gosto pela vida.
Sou o sexto filho de uma ninhada de sete, fiquei órfão aos três anos de idade e entregue a uma família de oito pessoas chefiada por uma viúva e doméstica. Desde muito cedo comecei a aprender e a experimentar o significado da palavra dificuldade. Os meus outros irmãos mais velhos, também menores, começaram a tomar conta dos mais novos incluindo o último que ainda só tinha vinte e quatro dias de existência quando a morte roubou o nosso pai.
É neste ambiente dramático e assombroso, sem grandes perspectivas, que surgiram  duas figuras, cuja caracterização foge ao âmbito das palavras, minha mãe e o meu irmão mais velho. A primeira por ficar viúva aos trinta e oito anos de idade e com a responsabilidade de educar sete crianças, não permitindo que falte pão e água para alimentar a todos; o segundo, por deixar, contra a vontade da nossa mãe, os estudos para trabalhar como mão de obra em serviços que poucos homens feitos aguentavam para ajudar na educação dos mais novos.
Com eles aprendi, desde muito cedo, o valor do trabalho e da dignidade, fazendo  trabalhos que os vizinhos achavam impróprios para criança de tal idade tais como buscar água em locais muito distantes e a altas horas da noite ou apanhar capim para alimentar os animais de corda.
Me admiro muito pelo facto de ser uma pessoa que, apesar das dificuldades vividas, nunca me senti revoltado com a vida, nunca usei o meu drama de criança como desculpas para os meus fracassos. Muito pelo contrário, isso sempre me serviu de inspiração. O que a vivi em criança tornou-me tolerante, alegre, respeitador dos hábitos costumes e princípios dos outros. Fez-me crescer como ser humano.
Até hoje não entendo como foi possível uma mulher suportar, sozinha, tantos problemas e resolvê-los sem se suicidar. Sempre tinha palavras de incentivo e pedia-nos que estudássemos para sermos homens e mulheres honrados. Não dominava a escrita, mas sabia o seu valor.
Quando cada um saía para a escola, recomendava que não metesse com outros meninos, que cuidasse dos materiais e que lembrasse que não tinha quem o defendesse, que voltasse assim que sair das aulas porque tinha muito que fazer em casa.
Eu, que ainda era muito pequeno, escutava atentamente as recomendações e rapidamente percebi que a escola era uma espécie de recreio para os meus irmãos devido ao grande volume de afazeres que sempre havia em casa. Aí comecei a perguntar quando é que chegava a minha vez de entrar para a escola e a resposta era sempre a mesma: - quando tiveres idade. O meu desespero chegou quando todos os meus amigos de brincadeira entraram para a escola e eu não, por completar os sete anos no mês de Fevereiro. Na verdade, só tinha seis anos.
Nos tempos livres eu ia brincar com os colegas e perguntava como era a escola e o que lá se fazia. Os colegas exibiam os seus conhecimentos e eu olhava atentamente e, morto de inveja, tentava fazer tudo o que eles mostravam.
Em pouco tempo, já conhecia as letras, os algarismos, as sílabas e em seguida lia e escrevia.
No ano seguinte entrei para a escola e estava louco para mostrar a toda gente que já sabia ler e escrever. Não parava de perguntar à professora quando iríamos começar a escrever datas e outras coisas mais. Importunei tanto a professora que ela começou a ficar zangada comigo, dado que estragava todos os planos que ela preparava para trabalhar com a turma.
No regresso a casa passava em frente a casa de um senhor muito idoso que era muito amigo do meu pai e pai da minha madrinha. Pedia bênção e mostrava o caderno diário que ele verificava com todo o cuidado. Comparava o meu caderno com o dos meus colegas. Admirava muito o meu adiantamento em relação aos colegas. Fazia reparos, tecia alguns elogios e recomendava estudo.
Era dos poucos que sabia ler e escrever e possuía uma caligrafia de fazer inveja aos doutores. Era quem escrevia grande parte das cartas para os emigrantes e dizia-se que era conhecedor dos segredos de toda a gente da aldeia.
Ainda pequeno, a minha mãe levou-me a uma missa do Santo Patrono da nossa freguesia, missa celebrada pelo Bispo e com padres convidados de todo o país. Nunca tinha visto tanta gente junta, gente de todos os cantos, magra, gorda, feia, bonita, branca, negra… até padres negros havia, para o meu espanto. Foi então que perguntei à minha mãe se gente negra também podia ser padre, e ela respondeu que sim, que para ser padre bastava ser bem comportado e ter boas notas na escola. Daí em diante eu passei a ser um exemplo de menino, tanto em casa como na escola.
Terminados os estudos preparatórios, nova desilusão. Não deram andamento na papelada que me permitia entrar para o seminário. O meu irmão, que já tinha deixado o serviço militar, matriculou-me no único liceu que existia na cidade da Praia. Ele tinha conseguido entrar para a polícia e, como era muito disciplinado e teve uma excelente nota, foi escolhido para trabalhar como segurança pessoal do então primeiro-ministro. Isso complicou um pouco as coisas, uma vez que ele teria pouco tempo para me orientar nos estudos mas, a minha vontade de estudar era tanta que decidi que ficava sozinho. A princípio houve uma certa resistência da nossa mãe, porque passaria a morar sozinho, com catorze anos de idade. Porém, aos poucos ela começou a aceitar a ideia e com o passar do tempo ficou tudo bem. Então, o meu arrendou um pequeno apartamento para eu morar e ele ia visitar-me nos dias de folga. Passei então a ser um rapaz quase independente. Este voto de confiança colocou uma grande responsabilidade sobre os meus ombros mas, graças a Deus, não decepcionei as pessoas que confiaram em mim. Consegui ser o primeiro jovem da minha localidade a conseguir terminar o ensino secundário na qualidade de aluno interno. Isso me granjeou muito respeito por parte de todos.
ARISTIDES DELGADO LOPES







IRACEMA
Que poesia há em ti, Iracema,
Virgem dos lábios de mel?
Que imagem é a tua?
Doce mãe…
Tantas estátuas para te construir
E todas se cruzam numa só.
Os cabelos longos, negros, escorridos
Sobre os ombros e o peito desnudo
O rosto escondido ou desenhado
Altivo , mas desonrado.
Roubaram-te a identidade, a beleza e a vida,
Mas não puderam roubar-te o amor
Que em ti só obediência, encontrou
Martim! Em vão procuraste
Nos limites infinitos da tua praia
E nunca pudeste buscá-lo…
Encontraste-o em Moacir
Quando em desespero já definhavas
O filho da dor que te foi matando.
India, mulher, mãe
Sofrida, doída, gloriosa
É de ti quem se fala hoje
E respiras no vento das praias…
Filha do Brasil
Mãe de Fortaleza






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